De 15 a 24 de outubro, o Rio de Janeiro recebe a 6ª Mostra do Filme Marginal, que, nessa edição, propõe um olhar sobre as urgências e os desafios ambientais por meio do cinema. Com o tema “Cinema e Emergência Ambiental: Imagens de um Futuro Possível”, a mostra reúne 123 filmes nacionais e internacionais, com exibições gratuitas em diferentes pontos da cidade. Entre longas, médias e curtas-metragens, o público terá acesso a produções independentes dos mais variados gêneros e linguagens: ficção, documentário, cinema experimental, ficção científica, animação, realismo fantástico e terror.
As obras selecionadas trazem reflexões sobre a crise climática e seus impactos sociais, culturais e políticos. Temas como aquecimento global, racismo ambiental, direito à terra, moradia, direitos indígenas, feminismo e diversidade sexual compõem a programação, colocando em diálogo diferentes territórios, experiências e formas de imaginar o futuro. Toda a programação é gratuita.
Há produções de todas as regiões do país, com destaque para os estados do Rio de Janeiro, que entra com 20 filmes; São Paulo, com 18; Rio Grande do Norte, com 10; Bahia e Pernambuco, com oito cada. Com obras de Brumadinho, Belo Horizonte e Uberlândia, Minas Gerais apresenta-se com seis documentários, que abordam temáticas como deslocamento forçado, crise hídrica, biodiversidade e mineração.
Seis documentários mineiros
Produzido em Belo Horizonte, UM LUGAR NA CIDADE é um longa-metragem realizado em parceria com o Reino Unido. Dirigido por Gabriel Silvestre, o filme parte das ideias do filósofo francês Henri Lefebvre para abordar como comunidades urbanas na América Latina enfrentam desafios como o deslocamento forçado, a segregação urbana e a desigualdade de gênero. A obra de 60 minutos percorre três experiências, em Rosário (Argentina), Santiago (Chile) e Belo Horizonte (Brasil). Em Rosário, o foco está na resistência a um projeto de condomínio fechado, que resultou na regularização fundiária e na elaboração participativa de um plano diretor local. Em Santiago, o documentário mostra como um grupo de moradores se organizou de forma autônoma para construir moradia popular no centro da cidade, rompendo com a lógica de expulsão para as periferias. Já em Belo Horizonte, a experiência é com antigas brigadas populares, hoje parte do MTST, e sua atuação em territórios da periferia da capital mineira.
Um dos destaques da mostra é MINHOCUÇU, produzido em Belo Horizonte, com direção de Leonardo Branco e Lucas Campos. O minhocuçu, espécie de minhoca gigante nativa do Brasil, sustenta há mais de um século a subsistência de dezenas de famílias em Minas Gerais. Ao revelar uma relação ancestral com a terra, o filme questiona os discursos que criminalizam essas comunidades e desloca o olhar sobre quem, de fato, ameaça o território. O curta reflete sobre a conservação da biodiversidade e justiça socioambiental, abordando a relação entre comunidades tradicionais e o minhocuçu, bem como os impactos da mineração, da pecuária extensiva e das monoculturas sobre os ecossistemas e os modos de vida locais. A produção de 18 minutos contou com recursos do Prêmio de Apoio a Empresa da Lei Paulo Gustavo.
FERIDAS NA TERRA percorre o território da Serra do Curral, em Belo Horizonte, revelando as histórias e os modos de vida que ali se constituem, em meio aos conflitos provocados pela mineração ilegal. A partir de memórias e relatos das comunidades do Taquaril e do Kilombo Manzo, que compõem esse território, o filme caminha entre a mineração predatória e a luta pela defesa da terra, expondo as marcas deixadas na paisagem, nos modos de vida tradicionais e nas pessoas que ali vivem. Com 46 minutos de duração, o média-metragem tem direção de Helena Duarte, e contou com apoio da Lei Paulo Gustavo.
De Uberlândia vem CANTO DA TERRA, dirigido por André Barcelos e Danilo Vieira. O filme de 20 minutos narra o cotidiano de Pedro Eustáquio, o Seu Pedro, agricultor, raizeiro, homem da luta agrária e filho do cerrado. Vivendo no interior de um assentamento de reforma agrária, Seu Pedro, aos 73 anos de idade e uma vida inteira dedicada ao campo, carrega nas mãos e nas histórias a memória viva da luta de um pequeno produtor rural. O filme é um mergulho na conexão entre o agricultor Seu Pedro e a “Mãe Maria Terra”, celebrando o valioso trabalho do campo e a agricultura familiar orgânica. Em sintonia com a natureza, o músico Jack Will transforma a paisagem em arte, onde a própria terra parece apresentar um show.
Produzido em Belo Horizonte, QUEREMOS PRAIA… ANUNCIAÇÃO é um documentário de 18 minutos, com direção de Chico Pelúcio, Marcelo Braga e Rodolfo Magalhães. Ao longo de trinta anos, três eventos buscam uma relação com o mar num território montanhoso do país, sem acesso geográfico ao que chamamos “sonho litorâneo”. A narrativa promove reflexões sobre os impactos das ações humanas na natureza, os conflitos socioambientais e a necessidade de preservação dos ecossistemas, ao mesmo tempo em que discute diferentes formas de pertencimento e conexão com a paisagem. O mar do delírio, do sonho, do político e de um crime ambiental, lado a lado num curto período geracional. Arte e denúncia numa maré repleta de sentidos.
Quanto vale um “corpo d’água”? Quanto custa uma nascente? De Brumadinho vem JANGADA ÁGUA VIVA, curta que aborda a crise hídrica e climática na região, agravada pela atividade minerária e violações de direitos socioambientais de comunidades afetadas pelo extrativismo. O filme se debruça sobre a vida na comunidade da Jangada, berço das famílias que sustentam a história, a cultura e a tradição em Casa Branca. As nascentes, que historicamente abastecem a comunidade, estão ameaçadas pela retomada e expansão da exploração na mina da Jangada. Em 2025, seis anos após o crime brutal que ceifou violentamente a vida de 272 pessoas e contaminou a bacia da Paraopeba, a mineradora Vale passou o direito minerário da Jangada para a Itaminas. A produçao de 14 minutos traz entrevistas com moradores da comunidade e faz um chamado para a união de forças em defesa das águas na região.
Destaques do ano
A abertura da 6ª Mostra do Filme Marginal será marcada pela estreia no Brasil do longa-metragem “Retorno a Fukushima” (Retour à Fukushima/Return to Fukushima), no Cinema Nosso, na Lapa. Dirigido pelo belga Thomas Licata, o documentário aborda a vida na cidade de Namie, na província de Fukushima, no Japão, mais de dez anos após o desastre nuclear de 2011.
Segundo Uilton Oliveira, idealizador da mostra, além da quantidade de filmes indígenas, especialmente dirigidos por mulheres, como ‘A Floresta das Mulheres-Peixe’, chamam a atenção nomes fortes na lista de diretores, como o de Leonardo Martinelli, carioca do Andaraí, que apresenta o curta “Samba Infinito”, que teve sua estreia em Cannes, no ano passado. Outro cineasta de destaque na programação é Alberto Sena, de São Gonçalo (RJ), que exibirá “Proteção”. De São Paulo, Thais Scabio e Gilberto Caetano participam com o longa de terror negro “Onde Estamos Seguros”, também exibido em Cannes.
Entre os filmes da programação que vem se destacando no circuito de festivais está “Capim Navalha”, documentário que retrata questões vividas por personagens trans na Chapada dos Veadeiros (DF), com direção do brasiliense Michel Queiroz. Nesse quesito entra também “Quanto Vale uma Década”, sobre os dez anos do rompimento da Barragem de Fundão, em Mariana (MG), dirigido pelo carioca Clementino Junior, fundador do Cineclube Atlântico Negro. “Os Arcos Dourados de Olinda”, do pernambucano Douglas Henrique, é outra produção bastante premiada em festivais no Brasil e no exterior. Muitas sessões incluem bate-papo com os realizadores, conforme a programação apresentada nas redes sociais da mostra, no site e Instagram.
Seis edições de cinema independente
A Mostra do Filme Marginal foi criada em 2017. Em sua primeira edição, 36 filmes foram inscritos e, neste ano, as inscrições chegaram a 356. A seleção dos filmes foi realizada pela curadoria formada por Leila Xavier, Milena Manfredini, Rosa Miranda, Rosy Nascimento e Uilton Oliveira.
“A mostra existe para promover a difusão do audiovisual independente, abrir caminhos, dar visibilidade e fortalecer narrativas que a sociedade muitas vezes tenta invisibilizar. É uma celebração da diversidade e da potência das vozes de nossas periferias”, afirma Uilton Oliveira, idealizador do evento.
“Entendemos o cinema como linguagem crítica capaz de dar visibilidade às populações que vivem na linha de frente dos impactos ambientais”, afirma a curadora Leila Xavier.
A 6ª Mostra do Filme Marginal é uma realização da Corpo Fechado, com apoio do Pró-Carioca Audiovisual 2026, Edital nº 2 – Apoio à Produção de Mostras e Festivais de Audiovisual, no âmbito da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), RioFilme.
SOBRE A MOSTRA
Desde que foi criada em 2017, a Mostra do Filme Marginal é uma iniciativa de difusão, reflexão, estímulo, autoformação e organização do público para um cinema popular, autoral e crítico. Por meio de parcerias com movimentos sociais e instituições culturais, tornou-se um importante espaço de divulgação de produções que trazem personagens e temáticas sociais, políticas e culturais diversificadas e marginalizadas pelo sistema sociopolítico vigente, com uma leitura crítica fora dos meios comerciais.
SERVIÇO
6a Mostra do Filme Marginal
Tema: Cinema e Emergência Ambiental: Imagens de um Futuro Possível
Data: de 15 a 24 de outubro de 2026
Local: cidade do Rio de Janeiro (diversos locais, conforme programação)
Entrada franca
Programação: https://mostradofilmemarginal.com/programacao-2025/
Site: https://mostradofilmemarginal.com/



