No próximo dia 7 de maio, Belo Horizonte recebe a estreia de A menina que
queria ser pedra, novo trabalho do artista visual, cineasta e músico Jackson
Abacatu, no Cine Santa Tereza. Com cerca de duas décadas de atuação nas artes
e no audiovisual, o diretor mineiro apresenta um filme que une literatura,
animação e matéria em uma experiência estética singular.
Livros viram cinema: uma linguagem visual rara e artesanal
Um dos grandes destaques do filme está na forma como ele é construído.
Utilizando páginas de livros antigos como base para a animação, Abacatu cria
cenas a partir da disposição desses livros em diferentes posições, tamanhos e
camadas, um processo pouco usual no cinema contemporâneo.
Cada movimento é inicialmente desenvolvido em animação 2D e, em seguida,
projetado e pintado manualmente sobre o papel com nanquim. As páginas são
então organizadas em composições físicas – que variam de um a vários livros
simultaneamente – e capturadas em sequência.
O resultado é uma estética única, em que texto, imagem e materialidade
coexistem, criando uma experiência visual quase tátil, marcada por
sobreposições, texturas e múltiplas camadas de leitura.
Entre literatura e imagem: as inspirações do filme
O projeto nasceu a partir de um conto escrito pelo próprio diretor, influenciado
pelas leituras do escritor Walter Hugo Mãe. A proposta também dialoga com
artistas visuais como William Kentridge e Ekaterina Panikanova, conhecidos por
explorar a relação entre desenho, tempo e suporte físico.
Essa convergência entre literatura e artes visuais se reflete na narrativa do filme,
que acompanha o diálogo entre duas crianças, um menino inquieto e uma
menina serena, em uma reflexão sensível e existencial sobre percepção, tempo e
transformação.
Uma provocação contemporânea: o tempo da pedra
Mais do que contar uma história, A menina que queria ser pedra propõe uma
experiência.
Em um cenário marcado pelo consumo acelerado de conteúdo e pela
fragmentação da atenção, o filme convida o espectador a desacelerar. A pedra
surge como símbolo central dessa reflexão — representando permanência,
silêncio e um tempo diferente do ritmo humano contemporâneo.
A obra sugere que falta-nos um pouco dessa sensação de “pedra”: a
capacidade de pausar, contemplar e mergulhar profundamente em
uma experiência artística seja no cinema, na música ou em qualquer
forma de expressão.
Som e matéria: trilha com instrumento de pedra
A proposta sensorial se estende à trilha sonora. O filme incorpora uma marimba
de pedra (litofone), construída pelo próprio diretor, além de elementos como
piano e handpan, criando uma atmosfera sonora leve e imersiva, que acompanha
o ritmo contemplativo da obra.
Jackson Abacatu: 20 anos de experimentação artesanal e um olhar próprio
sobre o mundo
Em 2026, Jackson Abacatu completa duas décadas dedicadas à criação artística.
Formado em Cinema de Animação e Escultura pela Escola de Belas Artes da
UFMG, o artista mineiro construiu uma carreira marcada pela inquietude criativa
e pela recusa em se fixar a uma única linguagem ou técnica. Ao longo desses 20
anos, dirigiu 18 curtas-metragens e 18 videoclipes, além de lançar dois álbuns de
músicas autorais — números que revelam uma produção consistente e
diversificada.
No cinema de animação, Abacatu transitou por técnicas como recorte, 2D
tradicional, stop motion, animação em areia e pintura em vidro, sempre
priorizando o processo artesanal e a experimentação estética.
Essa versatilidade rendeu reconhecimento em festivais nacionais e internacionais,
com exibições em países como Canadá, Portugal, Argentina, Espanha, Tanzânia e
Irlanda, além de prêmios como no 7º PRÊMIO BDMG CULTURAL, FCS de estímulo
ao curta-metragem de baixo orçamento e Melhor animação no 33º Festival
Guarnicê de Cinema – São Luis-MA, além de Melhor Animação Brasileira no
Baixada Animada (RJ).
Obras como Tembîara (2011), com sua profunda ligação à cultura indígena e à
língua tupi, e O Homem que Pintava Músicas (2013), que entrelaça animação e
linguagem musical, ilustram outros traços permanentes de sua obra: a conexão
com a natureza, a sensorialidade e a busca por experiências contemplativas.
A Menina que Queria Ser Pedra chega como uma síntese madura dessa trajetória – e uma celebração de 20 anos de cinema feito com intenção, autoria e olhar
próprio.
Como parte das celebrações pelos 20 anos de carreira, Jackson Abacatu será
homenageado com uma retrospectiva de sua obra na MUMIA – Mostra Udigrudi
Mundial de Animação, que chega à sua 24ª edição em dezembro de 2026. A
mostra reunirá uma seleção de seus curtas-metragens e videoclipes,
evidenciando a diversidade técnica e a evolução estética de sua produção ao
longo das últimas duas décadas. A retrospectiva reforça o reconhecimento de sua
trajetória no campo da animação autoral e destaca sua contribuição para o
cinema experimental brasileiro, consolidando seu nome entre os artistas que
expandem as possibilidades da linguagem animada

SERVIÇO
Filme: A menina que queria ser pedra – Jackson Abacatu
Estreia: 07 de maio
Local: Cine Santa Tereza
Cidade: Belo Horizonte – MG
Trailer:
https://youtu.be/Y_a-3ig_ilo?si=39VJ0Oq9T-vvFiCd

IVO

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